sábado, 23 de novembro de 2013

Lírico Leminski (coletânea)

A partir destas 26 canções, podemos visualizar um grande panorama da obra cancional de Paulo Leminski. Para a escolha destas, buscou-se encontrar um ajuste entre relevância histórica, diversidade de gêneros e parceiros e o gosto pessoal do compilador.
Se você deseja se aprofundar ainda mais na obra musical de Leminski, recomendo começar ouvindo os discos completos da banda Blindagem, o disco Pirlimpimpim II, o disco fazia poesia, de Marinho Gallera, e a obra de Moraes Moreira. Em todos estes casos, encontrar-se-á muitas músicas do poeta.

Baixe a coletânea aqui;

Ouça on-line pelo grooveshark;


Faixas:
[música (autores) | artista | disco | ano]

01) Luva de pelica (Paulo Leminski e banda A Chave) | A Chave | De Ponta Cabeça (Ensaio – Bootleg) | 1977;

02) Razão (Paulo Leminski) | A Cor do Som | Magia Tropical | 1982;

03) Mudança de Estação (Paulo Leminski) | A Cor do Som | Mudança de Estação | 1981;

04) Polonaise II (Paulo Leminski; Anna Toledo) | Anna Toledo | Viva! | 2001;

05) Além Alma (Paulo Leminski; Arnaldo Antunes) | Arnaldo Antunes | Um Som | 1998;

06) Filho de Santa Maria (Paulo Leminski; Itamar Assumpção) | Bernardo Pellegrini e o Bando do Cão Sem Dono | Quero Seu Endereço | 1997;

07) Oração de Um Suicida (Paulo Leminski; Pedro Leminski) | Blindagem | Blindagem | 1981;

08) Marinheiro (Paulo Leminski; Ivo Rodrigues) | Blindagem | Blindagem | 1981;

09) Verdura (Paulo Leminski) | Caetano Veloso | Outras Palavras | 1981;

10) Alles Plastik (Paulo Leminski; Carlos Careqa; Adriano Távora; Madalena Petzl; Volker Ludwig) | Carlos Careqa | Os Homens São Todos Iguais | 1993;

11) Oxalá (Cesta Cheia de Sexta) (Paulo Leminski; Moraes Moreira) | Gilberto Gil | To Be Alive Is Good: Anos 80 | 2002;

12) Xixi Nas Estrelas (Paulo Leminski; Guilherme Arantes) | Guilherme Arantes | Pirlimpimpim 2 | 1984;

13) Vamos Nessa (Paulo Leminski; Itamar Assumpção) | Itamar Assumpção | Sampa Midnight - Isso Não Vai Ficar Assim | 1986;

14) Polonaise (Paulo Leminski; Adem Michiowics; José Miguel Wisnik) | José Miguel Wisnik | José Miguel Wisnik | 1992;

15) Flor de Cheiro (Paulo Leminski) | Marinho Gallera | Fazia Poesia | 2004;

16) Nóis Fumo (Paulo Leminski; Alice Ruiz) | Marinho Gallera | Fazia Poesia | 2004;

17) Reza (Paulo Leminski; Zeca Baleiro) | Miriam Maria | Rosa Fervida Em Mel | 2000;

18) A Grande Ciranda (Paulo Leminski; Moraes Moreira) | Moraes Moreira | 50 Carnavais | 1997;

19) Pernambuco “Meu” (Paulo Leminski; Moraes Moreira) | Moraes Moreira | Coisa Acesa | 1982;

20) Mancha de Dendê Não Sai (Paulo Leminski; Moraes Moreira) | Moraes Moreira | Mancha de Dendê Não Sai | 1984;

21) Alma de Guitarra (Paulo Leminski; Moraes Moreira) | Moraes Moreira | Tocando a Vida | 1985;

22) Promessas Demais (Paulo Leminski; Moraes Moreira; Zeca Barreto) | Ney Matogroso | Mato Grosso | 1982;

23) Homem do Sul (Paulo Leminski) | Paulo Leminski | Entrevista Aramis Millarch | 1982;

24) Luzes (Paulo Leminski) | Suzana Salles | Suzana Salles | 1994;

25) Tudo A Mil (Paulo Leminski; Vange Milliet) | Tudo Em Mim Anda a Mil | 2002;

26) Festa-Feira (Paulo Leminski; Celso Loch) | Diversos | MAPA – Movimento Atuação Paiol | 1976;

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Gilberto Gil - To Be Alive Is Good-Anos 80 (2002)

Neste disco encontra-se a canção Oxalá (Sexta Cheia de Sexta). Segundo informações do próprio encarte do disco: “Composta por Moraes Moreira e Paulo Leminski, foi oferecida primeiramente a Gil para seu álbum de 1982 – quando ele voltou dos Estados Unidos e começou a gravar novas bases. O disco foi totalmente reformulado após um intervalo, quando Gil fundou sua Banda Um e recomeçou os trabalhos. Descartada, 'Cesta Cheia de Sexta' acabou sendo gravada pelo próprio Moraes em seu LP “Pintando o Oito” (Ariola, 1983).”

lmsk (mp3 + imagens)

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Brilha O Cometa Caetano


BRILHA O COMETA CAETANO1
Simples, sofisticado: o “show” de Cae que estreou em Curitiba

Paulo Leminski


CORES, NOMES

Se São Paulo já foi chamada de túmulo do samba, Curitiba, de certa forma a principal cidade do interior de São Paulo, era até a pouco a pirâmide com ar condicionado de todas as artes, onde jazia, impávido colosso, o sarcófago do vampiro daltônico (de Dalton Trevisan, por favor).

Todavia ventos mais cálidos começam a soprar entre os ipês da única capital do Brasil que, uma vez na vida, vê neve.

A ponto de Caetano Veloso dar partida na tournée nacional do seu show Cores, Nomes no burgo de Jayme Lerner, quando uma experiência de urbanismo social-democrata, quase européia, orquestrada pelo própria burgomestre, está substituindo o (raro) calor atmosférico pela tepidez humana do convívio e do encontro.

Pasmo foi ver Caetano substituir uma ojeriza antiga, conforme ele mesmo conta, por uma paixão inesperada.

“Gosto das coisas que dão certo.”

E exemplificou:

“A Rede Globo, Curitiba...”

Quem lotou o Guairão nos três dias de Cores, Nomes foi uma Curitiba especializada. Os caetanistas são gente especial. Os muito jovens, os não tão jovens, um tanto ou quanto contraculturais, artistas, artistas da vida ou em idade de arte. Para eles, em Curitiba Caetano apresentou, em première nacional, seu show mais simples e mais sofisticado. Algumas cores. Alguns nomes. Momentos de estesia. De beleza pura, terreno no qual Caetano é imbatível. Afinal, que mistério tem Clarice?

Ao longo de quase trinta músicas, o mago de Santo Amaro vai entremeando antigos sucessos com as canções do seu mais recente LP, um meandro caprichoso, que tem seus orgasmos na caetaníssima Sina, de Djavan, a mais nova paixão musical do “Cavaleiro de Jorge”.

Esta, aliás, a música com que começa a cavalgada das tropicais valquírias de Cores, Nomes.

Daí, Caetano salta para Cajuína, Menina do Anel de Lua e Estrela, Badauê, do LP anterior, para desembocar em Ilê Ayê, deste LP, com letra do seu filho Moreno.

De repente, Caetano se lembra de Subaé e da urgência de purificá-lo, dando a esse riacho que atravessa sua terra a grandeza de um símbolo ecológico.

Cores, Nomes, vibram os políticos, traz um Caetano explicitamente preocupado como os problemas da tribo e da espécie. Lá está E Ele Me Deu um Beijo na Boca que não me deixa mentir. Esse beijo-provocação, de homem para homem.

Com sua movimentação roqueira, jaggeriana, Caetano toma o Trem das Cores, como se sabe, um veículo que só pára em todas as amizades coloridas de que este final de século é capaz.

Billy-hollydayana a interpretação de Meu Bem, Meu Mal.

E, no final, Caetano ainda se Queixa, pondo para fora, com o público, tudo o que um homem pode ter contra uma mulher.

Nesse show, by the way, Caetano continua o mesmo. O mesmo conjunto. O mesmo estilo de se apresentar. O mesmo nível de sempre do maior poeta-cantor da música popular brasileira.

O último a chegar é fã de Fagner.


1 Publicado na revista Isto É, em 12 de maio de 1982. Foi publicado também como anexo da dissertação de mestrado "Leminski lírico: um estudo sobre as canções do poeta Paulo". Disponível em: http://tede.ufsc.br/teses/PLIT0561-D.pdf.

Subversive Rock

SUBVERSIVE ROCK1 

Paulo Leminski


Titãs. Ultraje a Rigor. Legião Urbana. Ira! RPM. Paralamas do Sucesso. Lobão. Cazuza. Subversão, teu nome é "rock-and-roll".

Vamos lá, moçada. Vamos mostrar que era pouco, muito pouco, o que Geraldo "Caminhando" Vandré2, Chico Buarque, Sérgio Ricardo e Gonzaguinha nos apresentaram como jeitos de dizer "eu não quero", "não estou nessa", "o rei está nu".

Vamos dizer o que eles não podiam dizer. Bichos, saiam dos lixos3. Nós vamos invadir sua praia4. Me chamam de bicha, vagabundo e maconheiro, mas transformaram este país num puteiro5. Vai lá, Arnaldo, e berra, "Jesus não tem dentes no país dos banguelas"6. Filho de quê? Filho de quê? Nome de mãe não vale, Roger, do Ultrage?7 Quem não deixa dizer? Brasil escroto das mil bandas das garagens de periferia, você pensa que a moçada ia ficar quieta? Não seja idiota, Brasil. Isso que fizeram com você não se perdoa. A gente grita, a gente agita, a gente sua. Tua vez, Cazuza, herói e mártir das revoluções invisíveis, as terríveis mutações que ninguém previa. O monstro, a maravilha, o fantasma da ópera, Frankenstein de acrílico, os Inocentes do Leblon, lá vai um Beijo à Força8 e um jato de cuspe de ácido sulfúrico dentro do olho, Buñuel cão andaluz.

Entenderam? Não? Não interessa. Vamos ao que interessa. Estado violência, Estado hipocrisia. Toma vergonha na cara, Brasil. Brasil, você, Brasil, eu, Brasil, nós, Brasil, até transformar essa vergonha em nação. Polícia, para quem precisa de polícia9. Está precisando de alguma coisa? Sim, realmente, esta cidade está se tornando inabitável. Sim, eu disse inabitável. Não adianta mudar. Dentro de cinco anos, o paraíso vai estar como este lugar aqui. Bares em chamas, bares cheios, escolas vazias, todo mundo buscando um endereço dentro da explosão. Som? Passaremos a cavalo sobre os plácidos prados de Mozart, cossacos shiitas trucidando todas as ordens. E haja Jimmi Hendrix. E haja Janis Joplin. E haja gritos e ranger de dentes para você (EU DISSE VOCÊ!) que pensa que tudo não passa de alguma coisa que passa enquanto você não nota que tudo passa, como passa você. Você que não sabia (no fundo, você sabia) que alguma coisa monstruosa (UMA COISA MONSTRUOSA) ia acontecer no seu rádio, na sua vitrola, no seu vídeo, na sua videovida, sim, vai, está acontecendo. Você finge que não vê, não ouve, não sente. Isso é coisa de pedra, não é coisa de gente. Você está sentindo. Dói fundo. Dói tanto em você quanto em todo mundo. Essa dor vai longe. Você vai ver. Não existe bomba atômica que faça o "rock-and-roll" desaparecer. Sinto no ar um vazamento de usina nuclear. Respiro fundo. Explodir tudo é a melhor coisa deste mundo.

Não se iludam senhores. Arnaldo Antunes vai morrer. Renato Russo vai. Cazuza esta morto. Pelo menos, temos alguma coisa em comum. Essa mania de correr atrás de dinheiro. Esse desprezo pela miséria de ter nascido brasileiro. Essas coisas que a gente conhece pelo cheiro. Essa vida falsa, essas cenas que se reprisam, esse dia-a-dia que nos anestesia. Rock, a gente encontra em toda a parte, em Londres, em Tókio, em Marte. Agora, também em Moscou. Moscou, Moscou, "rock-and-roll", Lênin e Trótski, o vento levou. Quem diz o que rola agora? Raul, seixas o que fostes outrora! Pau na mula, pé na tábua, Nova York é logo ali. Força, moçada! Mais um pouco, e a gente já não nasceu no Brasil.

Calma, calma, não há razões pra pânico. O teatro está em chamas mas o décimo sétimo batalhão de bombeiros está a postos para resgatar as vítimas de primeiro, segundo e terceiro grau. Enquanto os feridos são socorridos, olhos e ouvidos atentos para os nossos patrocinadores.

NOTAS (Foi publicado também como anexo da dissertação de mestrado "Leminski lírico: um estudo sobre as canções do poeta Paulo", de onde foram retiradas as notas. Disponível em: http://tede.ufsc.br/teses/PLIT0561-D.pdf):

1 Publicado no jornal Folha de Londrina, em 14 de abril de 1989. O texto se inicia com uma colagem de letras de músicas de bandas de rock and rolI que surgiram como uma retomada do gênero na década de 1980, cuja ideologia subversiva atentava, em grande parte, para questões sociais. Vamos indicando algumas dessas referências durante o texto.

2 Geraldo Vandré ganhou evidência pela música apresentada no Festival Internacional da Canção de 1968, Pra não dizer que não falei das flores. Embora o autor não goste da "etiqueta", ficou estigmatizado, através dessa música, como um compositor de canções de protesto, que na década de 1970, fizeram resistência ao regime militar implantado no Brasil. Todos os outro compositores desse parágrafo também fizeram composição de conteúdo crítico à ditadura e à questões socais como um todo.

3 "Bichos, saiam dos lixos", excerto da canção Bichos Escrotos, da banda Titãs, lançada no disco Cabeça Dinossauro, 1986.

4 Nós vamos invadir sua praia é a faixa-título do disco da banda Ultrage a Rigor, lançado em 1985.

5 O período alude à canção O Tempo Não Para, do compositor Cazuza, lançada em 1989, em disco de mesmo nome.

6 Jesus não tem dentes no país dos banguelas é a sétima faixa de disco de mesmo nome da banda de rock Titãs.

7 Referência à segunda faixa, Filha da Puta, do disco Crescendo, da banda Ultrage a Rigor, lançado em 1989.

8 Beijo AA Força é o nome de uma banda de punk rock fundada em Curitiba, na década de 1980.

9 Referência a canção Polícia, lançada no álbum Cabeça Dinossauro, da banda Titãs, 1986.

Como Era Boa a Nossa Banda

COMO ERA BOA A NOSSA BANDA1

Paulo Leminski

O mais velho da banda era o baterista que tinha um nome complicado, alguma coisa como Xerox, Clets, Ptyx, uma coisa dessas.

Já tinha passado por tudo.

Era um dos sobreviventes do Festival da Ilha de Wight, onde quem não foi eletrocutado pelos barridos elefantinos da guitarra de Jimmi Hendrix, afundou numa lâmina de ketchup e cocaína ou virou personagem do livro do Bivar.

Tinha voltado para a América do Sul numa leva de ex-exilados, cada um com seu livro de memórias guerrilheiras debaixo do braço, hoje, todos candidatos a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, a firma brasileira de móveis que fabrica as cadeiras mais duráveis, tão duráveis que alguns dizem que são imortais.

Xerox já chegava com uma larga bagagem musical na mochila. Tinha tocado berimbau na gravação do primeiro compacto do grupo inglês The Crazy Doctors and The Moneymakers, que fez muito sucesso naquela semana na Holanda, onde parece que qualquer coisa faz sucesso.

Tinha, além disso, substituído o baixista dos Debil Mentals of the Outer-World, no show em Chicago, onde foi aplaudido de pé por todas as oito pessoas presentes, entre as quais se destacava a mãe do vocalista, dona Shelley Cockintheass, entusiasmada como sempre com os agudos do Júnior.

Às vezes, a gente tinha a impressão que Xerox já tinha estado em toda a parte. E ao mesmo tempo, o que é mais grave.

Nos deu toques incríveis. Foi com ele que aprendemos a diferença entre um saxofone e uma bicicleta. Quem jamais preparou um frango xadrez como ele? Sem ele, não teríamos chegado a este lugar no “hit-parade”.

Os baixistas são gente diferente. Jóquei era assim, soturno, solene, sóbrio, como todos os baixistas. Acho que é influência daquele tum-tum profundo do baixo, aquilo muda as pessoas, pelo menos, os baixistas. O problema é que era quem mais bebia na banda. Tinha bolado um baixo oco, com espaço para encher de vodca. Uma noite, numa gravação com os Motherfuckers, estava tão bêbado que passou a noite inteira tocando uma só nota, e foi aplaudido como se fosse Jobim tocando o samba de uma nota só.

Barato mesmo era nosso guitarrista. Guitarrista, vocês sabem, são a coqueluche das menininhas. Ele fica ali com a guitarra fazendo umas coisas que parecem outras coisas, e elas adoram. Nosso guitarrista era o máximo, o gato mais lindo que jamais babou sobre as cordas de uma “fender”. Nunca tinha tocado guitarra. Só soubemos disso depois do estouro do nosso segundo compacto. Aí, já era tarde. O compacto já tinha vendido 100.000 cópias.

O vocal, às vezes, ficava por conta do guitarrista. Às vezes, por conta de todos. Às vezes por conta do próprio público, que cantava nossas canções, enquanto procurávamos nos entender no palco. Às vezes a gente conseguia.

Além do baterista, tínhamos também um percussionista, “boleteiro” como ele só. Justiça seja feita, nunca vi ninguém bater igual a ele. Não contente em bater em bongôs, atabaques e pandeiros, batia na mulher, na mulher dele, na mulher dos outros, o tipo do cara que batia em todo o mundo. Um dia ele bateu tanto num espelho, na hora que acordou, que ficou com as mãos inutilizadas para sempre. Mas, enfim, o mundo está cheio de percussionistas. E não tardamos a descobrir Mongol, o verdugo das baquetas, que ficou conosco até o fim.

Robby não tocava nada. Em compensação era na casa da mãe dele que a gente guardava os instrumentos. Assim, o nome dele aparece na ficha técnica dos nossos três compactos.

Que tempos pessoal!

Só a gente sabia. Mas era a maior banda que jamais houve no mundo.

NOTAS (Foi publicado também como anexo da dissertação de mestrado "Leminski lírico: um estudo sobre as canções do poeta Paulo", de onde foram retiradas as notas. Disponível em: http://tede.ufsc.br/teses/PLIT0561-D.pdf):

1 Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, em 23 out. 1985. Texto retrospectivo que é, curiosamente foi republicado no jornal Folha de Londrina, em 07 de abril de 1989, dois meses antes da morte de Leminski.

Pororoca

POROROCA1

Paulo Leminski

O acontecimento mais importante da cultura brasileira, nos últimos dez anos, corre o perigo de passar despercebido.

Os conformistas continuam falando que continuamos vivendo num “deserto de idéias”, ignorando que debaixo de seus próprios pés se agitam incontáveis lençóis petrolíferos, capazes, como nos ensinam os noticiários recentes, de alterar os destinos do mundo. Ou do caldo de cultura onde, como diz São Paulo de seu Deus, “nos movemos, atuamos e somos”.

Me refiro à pororoca, nome que dou ao choque entre a onda paulista e a onda baiana. Paulistas: os poetas concretos. Baianos: a tropicália. Os nomes: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari.

Assim como o encontro entre o rio Amazonas e o oceano Atlântico provoca uma comoção singularíssima, a ponte São Paulo-Bahia deverá nortear e desnortear os destinos da cultura brasileira nos próximos decênios.

Nessa comparação com a pororoca amazônica, os concretos paulistas exercem o papel do mar. São a abertura para o exterior.

O rio é a tropicália baiana: a excepcionalidade do menino maior, Caetano, que reduziu a alegria à sua equação elementar. Alegria = alegria. O “trobar clus” de Gilberto Gil (trobar clus = “compor fechado” era a escola dos trovadores provençais que compunham difícil, em contraposição aos que facilitavam no “trobar léu” = compor leve). O objeto mal e mal identificado. O violão bem afinado, o disco bem gravado: o nome no mercado, o empresário bem cotado. Esse buraco onde caiu o negro gato de Roberto Carlos, Macalé chamado e jazzista nato: filho de francês e crioulo, como só acontece em New Orleans (Macalé cantou num desses Woodstocks caboclos e “eu sou um NEGRO GATO de arrepiar” de Roberto Carlos, engatando porém na palavra buraco, pelo menos 20 vezes. Me disse ele: “pra fazer um buraco na cabeça de quem ouvia”. Poesia, me disse Pedro Leminski, é a arte de dar um branco da cuca de quem lê. Ou escuta, acrescento eu.) A sublime loucura de Sailor-moon, outrora Wally Salomão. Segurando as pontas para dar um troço. O judeu errante, Mautner, convertido à Bahia, sem medo da selva africana graças à cancha que adquiriu na concha acústica de Copacabana: beat, banjo & crazy pop rock. O fantasma de Torquato Neto, “suicide beau”, irmão em solução final de Maiakovski, exímio na arte, exato, dando uma de ausência – como Hendrix. O glamour de Gal, da Graça ou dos estados de graça, musa feita estrela. Bethânia, a betoneira, digerindo sentimentos como quem começa a dar pancada nas paredes industriais do mundo de mercado: sintamos, irmãos. São sintomas. Bahia: antes, trivial variado do samba enredo; agora, lugar comum do turismo. Ao fundo, João Gilberto (o único João, o João máximo, tão joão que resgatou do anonimato onomástico essa banalidade de chamar-se João, o joão gostoso, o joão dissonância: this is what bossanova is all about).

Graças tropicais & industriais, de um, de repente e de todos.

PAUSA

Enfim veio a pororoca. O encontro do mar com o rio.

O “know-how” de 20 e tantos anos da poesia concreta paulista trazia a marca dos grandes produtos industriais do sul. O acento gringo. O irlandês dos Brown (Augusto e Haroldo são BROWN de Campos). O osasquês de Décio, bárbaro bizantino, operário do ABC, filho de pignataro = “oleiro”. O jingle filarmônico de Rogério Duprat. O plano piloto da Poesia Concreta, gêmeo do de Brasília. Marketing e informação em dia.

O lugar ao sol de séculos de Bahia – África, revelado, num momento de festival e vaias, (via Duprat, arranjador mor da Tropicália), fazendo trocadilho, mudando os Mutantes, brincando palavras, botando pudim de abacaxi na formiga dos tamanduás nacionais (os acéfalos que meteram no olho da rua o júri que premiava “Cabeça”, de Walter Franco. Caetano “Salvador é uma cidade de muita personalidade”. Triste Bahia, de Gregório de Matos. Transas. Os números cabalísticos: 2222. Na terra onde inventam instrumentos, viver é “luxe, calme et volupté” (Baudelaire): lá até os deuses têm pedigree (black power). É onde não se lançam os dados, mas os búzios. Onde se dizem palavras novas: babalorixá, amaralina, acarajé, o-ba-lalá, calmarja, anticomputador sentimental.

O encontro do rio com o mar – não físico mas químico, ou melhor, alquímico – só poderia dar um resultado comparável à conjunção do salitre, carvão e enxofre: pólvora. O influxo do novo mundo verbal e semiótico dos concretos paulistas sobre os geniais compositores baianos: o sangue e o suingue novo dos baianos nas geniais equações da paulicéia estruturada.

Caetano teve a macheza jagunça de quebrar a cara numa gravação experimental como “Araça Azul” (O Azur de Mallarmé), pelado, muitas vezes pelado, em sinal de grande pureza, como disse Lígia, ao interpretar certo a má versão que eu estava dando da capa da bolacha (eu falava em contraste/contradição entre a capa naturista e o disco – erudito).

Paulistices, dirão os baianistas autênticos. Não tem nada: a pororoca esta aí para isso mesmo. Para Augusto de Campos sair em vôos Lupicínios, por terrenos sonados e dissonados pelo Mestre João. Os quais já eram da intimidade de Zé-Lino Grünewald, enrustido naquela de grande crítico de cinema quando a sua magnitude está em todas.

Zé-Lino: o que preferiu dar a impressão de ficar para trás porque pretendia chegar antes. Nostalgia, cafonália. Ruy Castro entendia e a gente se atrapalhava.

Pororoca: São Paulo + Bahia. A indústria, o folclore. Os internacionais e a região, incrível, não acham?

FATOS

Augusto de Campos, de longe o mais notável crítico da música popular brasileira, empatou todo o seu prestígio intelectual em Caetano, quando o Brasil inteiro se dedicava meticulosamente em apedrejar o menino de Santo Amaro.

Pensou bem e escreveu: “É proibido proibir os Baianos”. “A explosão de Alegria-Alegria”, quando era moda permanente achar que aquilo tudo era moda passageira.

Os tempos por vir falaram mais alto. Diriam que Caetano e Gil eram mesmo os legítimos inventores da nova música popular brasileira, aberta, avessa a xenofobias míopes, ciosa do seu futuro.

O assunto do primeiro papo entre Augusto e Caetano foi uma tara comum: Lupicínio Rodrigues. O Lupicínio do Acaso: o acaso de “se acaso você chegasse”. Seria o mesmo acaso cibernético de Mallarmé, objeto de uma poema ortogonal de Augusto de Campos (le Hasard)? O acaso que aproximou Augusto e Caetano?

NOTAS (Foi publicado também como anexo da dissertação de mestrado "Leminski lírico: um estudo sobre as canções do poeta Paulo", de onde foram retiradas as notas. Disponível em: http://tede.ufsc.br/teses/PLIT0561-D.pdf.)

1 Publicado no jornal Diário do Paraná, em 17 jun. 1977. “Pororoca” é o encontro do rio Amazonas com o Oceano Atlântico. Leminski usa o fenômeno como alegoria ao encontro do concretismo com o tropicalismo, que seria a união entre o europeu e o tropical.

Por Amor A Gil

POR AMOR A GIL1

Paulo Leminski

Por amor a Gil, contrariando meus hábitos eremíticos e notívagos, vou estar no auditório da Folha hoje, às cinco horas da tarde, participando da série de papos sobre MPB, parte dos festejos comemorativos dos vinte anos de vida artística (pública) de Gilberto Gil.
Na efeméride, pretendo apresentar um número especial que preparei, uma tradução dos sons da sanfona (primeiro instrumento que Gil praticou) para montagens "joyceanas" e de ideogramas concretistas (minha homenagem a São Paulo). Espero, dessa forma, agradar a gregos e baianos, granjeando, assim, simpatias, quiçá adesões, para o partido que decidi anunciar na ocasião, o coração partido.
Não estarei sozinho. Levo comigo minhas convicções democráticas e a Fratura Exposta, minha banda "regae-new wave", que fará um "happening" dedicado a John Cage, enquanto eu recito, de cor, a lista telefônica de São João Del Rey, em memória de Tancredo Neves.
Não contente com isso, planejo discutir, à luz do mais puro "marxismo-leninismo", a proposta do encontro, que é "um bonde chamado desbunde".2 Na ocasião vou levantar a discussão da oportunidade de estarmos ali debatendo um tema tão vago, quando podíamos estar, alegremente, participando da assembleia-geral de algumas das greves que hoje, em S. Paulo, já estão se transformando em verdadeiras atrações turísticas.
Eu vou entrar com as luzes todas apagadas. Vou acender um cigarro e, nesse momento, as luzes todas se acendem e iluminam a plateia, com um brilho cegante. A equipe da Rede Globo tem ordens para começar a filmar exatamente nesse ponto, iniciando por uma panorâmica do auditório, onde já se pode vislumbrar Fernado Henrique Cardoso, Christiane Torloni, Luis Melodia, d. Evaristo Arns, Lula, Gaiarsa, Maguila, você, você e você.
Na mesa, o público vai começar a identificar alguns dos seus ídolos.
Deste momento em diante, o roteiro é um pouco livre, liberdade que eu faço questão que seja dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa.
Passado o frêmito inaugural, serenados os ânimos da massa enlouquecida, começa o verdadeiro espetáculo, misto de teatro "kabuki" e "missa negra", baile de formatura e decisão do campeonato carioca.
Desnecessário dizer que o Glauco vai estar lá, acompanhado pelo Geraldão e pela mãe (do Geraldão, não do Glauco, é claro).
A seguir, vai ser entregue ao poeta Antônio Risério o diploma do título de "Cidadão Honorário" de Salvador, uma bobagem, claro, já que Risério é de Salvador, mas o Zé Celso insistiu, e eu achei melhor não discutir Shakespeare com alguém que já tinha dirigido "O Rei da Vela".
Risério deverá chorar durante um minuto, dizer que não tem palavras para agradecer aquela homenagem e, comovido, passar o microfone para o outro Antônio, Bivar, que vai contar a história do desbunde, desde o paleolítico até a ilha de Wight, e apresentar sua teoria de que o "Homo Sapiens" já foi substituído pelo "Homo desbundans".
Quando o Bivar falar "é isso daí, bicho", entram os comerciais. Um grupo "punk" de Vila Mariana irrompe em cena, batendo uns nos outros e entoando palavras de ordem "Krishna". Rogério Duarte, o único de nós que arranha um pouco de sânscrito, vai começar a explicar o sentido da palavra "sat-cit-ananda", quando já se ouvem os relâmpagos dos Stones, em "Undercover of the Night", anunciando a entrada de Ezequiel Neves.
Nosso Zeca Jagger deverá levar meia hora explicando as razões que levaram o Cazuza a se afastar do Barão Vermelho, deixando ao Frejat a espinhosa tarefa de levar, sozinho, a "bandeira vermelha" do Barão até o primeiro lugar na lista do "hit parade".
Não há, realmente, o que a gente não faça por amor a Gil. Nesse exato instante, irrompe no recinto o Matinas Suzuki que, armado de uma espada samurai, tenta cortar o fio do microfone, no que será impedido por uma voz dizendo:
- Sem forma revolucionária, não há arte revolucionária.
Matinas hesita, olha em volta, e sai intempestivamente, deixando atrás de si um rastro de murmúrios.
Claro que vivemos em tempos "pós-tudo", de indeterminação pré-apocalíptica, "cageana", tudo sujeito aos arbítrios do "I-Ching".
Não quer dizer que as coisas vão se passar exatamente assim.
A arte moderna, vocês sabem, comporta uma dimensão muito grande de acaso, de improvisação, de criação momentânea.
No final, alguém oferecerá o microfone ao poeta Waly Salomão. Coisa perfeitamente dispensável, uma vez que o dito, como uma cimitarra, já está nas mãos do bardo arábico há mais de meia hora.
Quem tiver alguma coisa melhor para fazer, pode dizer abertamente, que a gente não liga. Nós já estamos acostumados com ingratidão.
Quem não tiver, pode aparecer.
O traje é esporte, a entrada é franca, a saída é pela esquerda, a vida é curta, o diálogo é fundamental, a praça é do povo, o céu é do condor, a reforma agrária vem aí, a censura acabou, a gente faz o que pode, a vitória é nossa, a noite é uma criança, a viagem é longa, a carne é fraca, o rei da brincadeira é José, o rei da confusão é João, Deus é mais.
Não vai ser um barato?

NOTAS (retiradas do anexo de dissertação de mestrado "Leminski lírico: um estudo sobre as canções do poeta Paulo", disponível em: http://tede.ufsc.br/teses/PLIT0561-D.pdf)

1 Publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 13 de novembro de 1985. Este texto, uma espécie de conto fantástico, tem seu pé na realidade. O evento ao qual Leminski se refere realmente aconteceu, foi o “Gil 20 Anos Luz”, em comemoração aos 20 anos da carreira do compositor baiano. Na programação consta um debate com participação de Leminski intitulado “Música de Massa – Brasil e Modernidade”, previsto para o dia 15 de novembro. O evento todo ia de 12 a 17 de novembro de 1985.
2 Título de um debate do evento. Entre os debatedores, Jorge Mautner e Tárik de Souza.

Marinho Gallera - Fazia poesia - Marinho Gallera, Paulo Leminski e mais (2004)


Esse disco é inteiro dedicado à parcerias de Marinho Gallera com Leminski, salvo poucas exceções. Flor de Cheiro, Quem Faz Amor Faz Barulho e Caixa Furada são exclusivamente de Leminski; Live With Me é um poema de Shakespeare musica pelo poeta e Nóis Fumo é uma parceria dele (a única) com a poeta (e esposa) Alice Ruiz. Enfim, este é simplesmente o disco já lançado com o maior número de canções com a participação do cachorrolouco. 16 faixas, ao todo.
Destaques: Flor de Cheiro, Quem Faz Amor Faz Barulho, Nóis Fumo (tudo opinião pessoal de mim mesmo).
O samba-canção Flor de Cheiro é considero a primeira composição de Leminski, criado enquanto o mesmo tocava violão com seu irmão Pedro Leminski, em finais de 1960. Você encontra uma análise mais "acadêmica" de Flor de Cheiro aqui, coisa de quem mexe com canção.

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Bibliografia

Textos que tratam especificamente da obra musical de Leminski:

CALIXTO, Fabiano. No Corpo da voz: a poesia-música de Paulo Leminski. In: CALIXTO, Fabiano; DICK, André (Orgs.). A linha que nunca termina. Rio de Janeiro: Lamparina, 2004.

LOPES, Adélia Maria. O Poeta da face pop. O Estado do Paraná, 6 de junho de 199. Transcrição em:
http://liricoleminski.blogspot.com.br/2014/04/o-poeta-da-face-pop-o-estado-do-parana.html

OLIVEIRA JUNIOR, J. V. Leminski lírico: um estudo sobre as canções do poeta Paulo. Dissertação (Mestrado em Literatura) - UFSC, 2013. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/107200/320230.pdf?sequence=1

SANDMANN, Marcelo. Nalgum lugar entre o experimentalismo e a canção popular: as cartas de Paulo Leminski a Régis Bonvicino. Revista Letras, n. 52. Curitiba: Editora da UFPR, 1999. Disponível em: http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs/index.php/letras/article/viewFile/18946/12266

SANDMANN, Marcelo. Na cadeia de sons nada vida: literatura e música popular na obra de Paulo Leminski. Crítica Cultural, vol. 4, nº 1. Disponível em: http://linguagem.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/critica/0401/040106.pdf

SANTHIAGO, Ricardo. “Hoje grafo no tempo”: a produção cancional de Paulo Leminski. Disponível em: <www.repom.ufsc.br>. Acesso em: 12 out. 2009. Disponível em: http://www.repom.ufsc.br/repom5/leminski/lem.htm

VAZ, Toninho. As canções de Leminski. Revista Bravo, junho de 2013. Disponível em: http://bravonline.abril.com.br/materia/as-cancoes-de-leminski#image=190-mu-paulo-leminski-1

sábado, 2 de novembro de 2013

Vange Milliet - Tudo Em Mim Anda a Mil (2002)

Neste CD, podemos ouvir a canção Tudo A Mil. Trata-se de um poema de Leminski, publicado no livro La Vie En Close, musicado por Milliet.

Depois de uma rápida passagem pelas Ciências Sociais na USP e pela propaganda, na ESPM, Vange iniciou sua carreira em 1988, em dupla com Chico César. Os dois ainda atuavam em outras áreas (ela era fotógrafa e Chico, jornalista), quando decidiram assumir a música.
Neste percurso trabalhou com artistas tão diversos como o mestre Zé Kéti, o guitarreiro Luis Vagner e Itamar Assumpção (nas bandas "Isca de Polícia" e "Orquídeas"). A partir de 1994 inicia trabalho solo acompanhada da banda "Paulada na Moleira", formada por Paulo Lepetit (baixo), Chico César (violão e backing-vocal) e Renato Braz (percussão e backing-vocal). Com esta formação grava seu primeiro disco "Vange Milliet". Neste CD, que já virou cult, Vange apresentou ao público os então desconhecidos, Zeca Baleiro, Lenine, Chico César, André Abujamra e Rita Ribeiro. Muito bem recebido no Brasil e no exterior, o disco é um dos marcos iniciais da chamada "nova geração da música brasileira".
Em 1998 lança "Arrepiô" , firmando-se como compositora em parcerias com Chico César, Zeca Baleiro e Itamar Assumpção. Com este trabalho excursiona pelo Brasil, Europa e África, e recebe críticas positivas até no Japão. Gravou em "Santagustin" espetáculo do Grupo Corpo de dança, com trilha composta por Tom Zé, que estreou em agosto de 2002. Seu terceiro disco é "Tudo em mim anda a mil", com produção de Paulo Lepetit e Zeca Baleiro. (fonte: wikipedia)

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Anna Toledo - Viva! (2001)

Neste álbum, encontra-se a canção Polonaise II. A obra é um poema de Leminski, publicado no livro Poloanises e musicado por Toledo. A canção, Polonaise II, tem esse título pois José Miguel Wisnik  já havia musicado antes a epígrafe do mesmo livro, e intitulou a canção de Polonaise.

Apontada pela crítica especializada como a grande revelação da música paranaense, a cantora Anna Toledo lança o primeiro CD,
Viva! - Dabliú Discos. Senhora de uma afinação especialíssima, Anna Toledo transita com facilidade desde os standards do jazz aos clássicos da MPB, suas grandes influências. Essa habilidade lhe rendeu ser considerada referência de bom gosto na noite curitibana.
Viva! flerta com sonoridades pop e reverencia compositores clássicos com as peculiares regravações de Você Só... Mente, de Noel Rosa e a preguiçosa Samba e Amor, de Chico Buarque de Holanda. Com tons delicados e versos intimistas, destacam-se as canções Navegar, Farol da Noite e Trilha Sonora, do compositor paranaense Sérgio Justen que, somadas à interpretação personalíssima da cantora, confirmam o potencial de Anna Toledo. Atenção também deve ser dada à Une Chanson Triste, de Herbert Vianna, em forma de blues.
Como compositora revela-se nas canções
Virgínia, Vagamente e Polonaise II, musicando o belo poema de Paulo Leminski.
Viva! é um bom momento de uma cantora em ascensão, que imprime sua forte personalidade em cada interpretação, determinando seu estilo extremamente particular e precioso.
Promessa de grande intérprete da nossa MPB.
(fonte: http://www.mpbnet.com.br/musicos/anna.toledo/)

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oswaldo rios - retrovisor (2003)

Neste CD, temos a canção sem budismo, um poema de Leminski musicado por Oswaldo Rios. Originalmente o poema foi publicado no livro Distraídos Venceremos.

Integrante do grupo Viola Quebrada, um dos principais representantes da música de raiz no Paraná. Com quase 30 anos de carreira, Oswaldo Rios já passeou pelo pop e pela MPB, mas sua verdadeira paixão é a música caipira. Na década de 90 fez parte do projeto sertanejo “Três Paus”, ao lado de Sérgio Deslandes e Rogério Gulin, com quem ainda divide os palcos no grupo Viola Quebrada. Em sua trajetória artística, Oswaldo já gravou cinco CDs e um DVD. (fontehttp://www.curitibacultura.com.br/noticias/releases/paiol-reune-o-melhor-da-musica-caipira)

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Miriam Maria - Rosa Fervida em Mel (2000)

Neste CD, encontramos a linda canção Reza, feita a partir de poema de Leminski. O texto é retirado do livro La Vie En Close e foi musicado posteriormente por Zeca Baleiro. Um disco todo de primeira, com arranjos muito coerentes e a voz solta - porém precisa - de Miriam. Do repertório, destacaria Maná, As Asas, Meu Enxoval (com trombone do Bocato!), além da própria Reza, é claro. Aliás, Reza, com verso que da nome ao CD ("rosa fervida em mel"), na minha opinião, é uma prima, singela e profunda. Uma das músicas que mais ouço do repertório leminskiano. Como diria o professor Newton da Costa, "belo é tudo aquilo que resiste à familiaridade." Sendo assim, uma vez que não "me canso" da dita cuja, apesar da familiaridade, poder-se-ia dizer que a mesma é, esteticamente pensando, Bela.

Novo talento para o público, mas veterana no cenário da música popular brasileira, Miriam Maria já fez parte da excelente banda de apoio de Itamar Assumpção – as Orquídeas do Brasil –, integrou os vocais de apoio de Leandro e Leonardo e teve várias participações em discos de nomes como Chico César, Zeca Baleiro e Arrigo Barnabé. [...] Sua voz doce, apurada e fervida em oito anos de canto lírico e muita estrada, sim, muita estrada precoce como vocalista do grupo Canastra, quatro anos de canto dedicado às Orquídeas do Brasil, de Itamar Assumpção, participando de três discos, e formando o esperado trabalho ao vivo da clássica ópera MPB moderna ‘Clara Crocodilo’ (1999), de Arrigo Barnabé. (fonte: http://www2.uol.com.br/uptodate/miriam/)

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Ps. Esse é o primeiro CD do blog. Sigamos!


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Caetano Veloso - Outras Palavras (1981)

Esse disco, do Caetano, é um dos mais importantes na carreira de Leminski, não apenas musical, mas da carreira como um todo. Nele está a canção Verdura, música e letra de Leminski (tecnicamente, Ivo Rodrigues poderia entrar como parceiro, pois teve participação na criação da harmonia). É com o Lp que Leminski atingiu um maior público, ele, poeta da então região metropolitana de São Paulo, Curitiba. Ele, romancista, mas de um romance todo experimental, o Catatau, restrito à círculos intelectuais e acadêmicos. Com esse disco, o nome de Leminski invadiu outras paragens, ao lado do nome de Caetano. Não é a toa que, em 1982, logo após o lançamento do mesmo, o poeta da província sairia em ampla matéria na revista Veja, com atenção especial à sua obra musical e ouvidos atentos à canção gravada pelo baiano:

"Desde que Caetano Veloso gravou a faixa “Verdura” em seu vitorioso último LP, o poeta paranaense Paulo Leminski, autor da canção, transformou-se numa das citações indispensáveis da temporada entre a juventude de São Paulo e do Rio de Janeira. Através de uma melodia forte, combinando rock e samba de roda, e de uma letra de saboroso humor negro, Leminski surgiu como uma das raras e boas surpresas da música brasileira, uma novidade a se discutir e nela apostar, confirmada pela gravação de sua belíssima “Valeu”, no LP de Paulinho Boca de Cantor. Agora, com duas canções entre as mais executadas nas rádios FM do país — ‘Mudança de estação’, com a Cor do Som e ‘Chapéu de marinheiro’, com o grupo Blindagem —, ele conquista uma popularidade tão justa quanto avessa à sua personalidade."

É dessa época também que iniciaram os convites para articulista regular de vários periódicos, como o jornal Folha de São Paulo e a própria revista Veja. Na minha opinião, o fato dessa canção ainda ser a mais conhecida do Leminski é muito simples: Caetano é o mais célebre de seus intérpretes. No disco, ainda podemos rastrear pegadas de Leminski, numa alusão ao Catatau, na última estrofe da canção Outras Palavras. Sua construção lembra o estilo "canábico" de escrita, recheado de palavras-valíse, trocadilhos, linguismos e neologismos:


Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz
Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris, espacial
Projeitinho, imanso, ciumortevida, vivavid
Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun
Homenina nel paraís de felicidadania:
Outras palavras


Sobre Verdura:
Conta-se que foi concluída a partir de uma notícia de jornal sobre o tráfico de crianças na Colômbia. "Síntese de tropicalismos", nas palavras de Régis Bonvicino, ou, como diz Caetano, um "haikai da formação cultural brasileira". Não considero a melhor música do Tio Lema. Canções como Luzes ou Mudança de Estação e muitas outras parcerias, são, para mim, muito mais atrativas e bem acabadas, mas, como já aventamos, Verdura ainda é a mais pop mesmo - porque Caetano é pop (corruptela de popular, como ele bem lembra, na belíssima cena de Uma Noite em 1967.) Leminski publicou a letra de Verdura como poema no livro Não fosse isso e era menos. Não fosse tanto e era quase. Também gravaram a canção João "Bicho do Paraná" Lopes e a Banda Blindagem. Não vou delongar na análise, é melhor ouvir. That is it!

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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Diversos - Pirlimpimpim 2 (1984)

Este é certamente um disco especial na carreira musical de Leminski. É um, como poucos, que contém uma grande quantidade de músicas suas. Mais precisamente, das dez faixas do Lp oito são parcerias dele com Guilherme Arantes. O Lp é a trilha sonora de um musical feito pela Rede Globo, Pirlimpimpim 2, e, por isso, deu uma visibilidade ainda maior ao "poeta da província". A parceria com Guilherme Arantes, no entanto, como aponta seu próprio parceiro, não foi adiante. Alegou-se "falta de química" entre os dois.
O que chama a atenção é o tom contestar, filosófico e edificante das letras. Talvez até meio "pesado" (mas muito legal), se pensarmos que se trata de um disco dirigido ao público infantil. É o caso próprio de Xixi nas estrelas, a mais difundida de todas as canções. Um alerta para o perigo do homem no espaço. Ele, que já envenena a terra, com suas "armas e suas asneiras", poderá fazer da mesma maneira com espaço, que começa desbravar. Por sorte, há um defensor dos céus, que, no clipe oficial, é representado pela figura de São Jorge. O tom contestador também aparece em O Prazer do Poder: "- deixa eu ser como eu sou, independente, que prazer tem você vendendo a gente? - O prazer do poder, criança não tem que querer."
A trilha, feita através de ligações telefônicas, em que Leminski ditava as letras e Guilherme tocava as músicas, apresenta uma bela amostra da inventividade de Leminski enquanto letrista.

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Leminski assistindo ao clipe de Xixi nas Estrelas:

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Bocato - Ladrão de Trombone (1990)

Seguindo o desejo de encontrar tudo que possa ter relação entre Leminski e a música, surgiu este post. Do tio Lema mesmo, aqui, não tem nada, assim, pragmaticamente falando. Temos, de fato, o espírito zen do poeta, presente na última faixa (Arigato Leminski) desde disco do trombonista (y otras cositas más) Bocato.
Olha, o disco é muito bom, pra quem gosta de viagens psicodélicas e música instrumental. Não bastasse isso, ainda há tempo para críticas sociais. Viagem consciente. É o caso da faixa-texto Brasil Confusion, que explica a motivação da revolta dissonante da faixa consequente. Aliás, o título Ladrão de Trombone é provavelmente uma lembrança daquele filme Ladrões de Bicicleta. O filme, assim como o disco, lembra da dificuldade de não ter nada, de ganhar a vida com oportunidades escassas. Mas, como vocês poderão ouvir, tudo acaba numa boa ou, pelo menos, menos insano, com a música que homenageia Leminski, uma espécie de poslúdio. Ânimos serenados de sabedoria oriental.

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domingo, 11 de agosto de 2013

Curitiba. Cidade da gente. - Marinho Gallera e Paulo Vítola (1983)

Bom, como eu havia prometido, venho agora postar o disco Curitiba. Cidade da gente., que tem aquele super dicionário sobre a cidade, elaborado por Leminski, ABCuritiba. Ouvindo todo o disco novamente, ocorreu-me que, no fundo, o tal dicionário não deixa de ser senão um glossário desse Lp. Um guia. Útil aos curitibanos mais jovens, que não podem se recordar de personagens e fatos famosos da capital do paraná, porém antigos. Útil ainda aos não curitibanos, o glossário, obviamente, vai explicar mais. Rua das Flores? Ilha do Mel? Isso qualquer curitiboquinha sabe, mas nem todo mundo "de fora". O ABCuritiba, aliás, com a ordem alfabética dos verbetes totalmente fora de ordem, segue, na verdade, a ordem dos textos das canções desse disco, como se os verbetes fossem, na verdade, notas explicativas.
Sobre o disco:
Bom, muito bom. Produção de primeira, excelente projeto gráfico, melodias e arranjos super bacanas. Mas algumas coisas me irritam. Acho nauseante uma certa reverência cega a cidade. Como se Curitiba fosse o melhor lugar do mundo. Puxa-saquismo total. Veja-se a própria faixa Cidade da Gente. Pra mim, faltou um pouco de crítica mesmo, direta, em demonstração de amor. O Paulo Cesar Botas, cantor em algumas faixas, às vezes pisa feio na bola, mas isso é detalhe.
Boas (gosto pessoal!): Era uma vez, Choro de Rua, Mate Socado (mais um chamamé do Gallera, especialista), Ó de casa.
A canção Mocinhas da cidade, aqui resgatada, foi famosa em idos tempos, cantada nas vozes de Nho Belarmino e Nha Gabriela, que, por sua vez, participam desse "remake". Leminski também empresta sua voz a canção, participando do coro.

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sábado, 3 de agosto de 2013

ABCuritiba

Olá! Encerrados, agora, meus compromissos acadêmicos maiores, espero, daqui por diante, dar continuidade aos trabalhos do nosso blog. E, para estrear a minha volta, trago um texto pouco conhecido de Leminski. Trata-se do ABCuritiba. Escrito em forma de dicionário, faz parte do extenso encarte do disco Curitiba. Cidade da gente, de Marinho Gallera e Paulo Vítola. Bom, pelo título do disco, acho já deu pra sacar o que o tal "dicionário" se propõe abarcar: Curitiba, a única capital do país que vê neve, uma vez que outra. No dicionário figuram, meio en passant, personagens, datas, lugares. Por isso não se espantem com a confusa ordem alfabética dos verbetes, está assim mesmo no original.
Entre uma entrada e outra há alguns textos de jornais antigos, que nos dão uma visão mais íntima das Curitibas de outrora. Esses excertos não foram digitalizados, mas vocês podem lê-los através das imagens. ABCuritiba também foi reproduzido no livro Chucrute e Abacaxi com Vinavuste, de Paulo Vítola.
Há, no abc, algumas entradas inusitadas, como CDF, pois não fica muito clara a relação com Curitiba. Será que tem muito CDF em Curitiba? O termo foi criado na capital paranaense?
Texto-homenagem de Leminski a sua cidade natal, está sempre salpicado com uma sacada aqui (“o maior palhaço que essa cidade já riu”), um trocadilho ali, muitos golpes do “samurai malandro”. A linguagem, por vezes rebuscada (“enlevo e arrebatamento”), simula um certo estilo antigo e provincial do linguajar, mas sem deixar o texto pesado, muito pelo contrário, deixa-o ainda mais divertido e irônico (e crítico!). Em breve eu posto o disco Cidade da gente aqui, em que Leminski faz uma ponta de cantor.

ABCuritiba.
Paulo Leminski

Curitiba - A capital do Paraná deve seu nome tupi ao muito (tiba) pinhão (cury) que abundava em toda região, até um passado bem recente. Principal fonte de amino-ácidos dos indígenas da terra, o pinhão era consumido nas mais diversas formas: cru, cozido, mas principalmente reduzido a farinha. Os índios recolhiam o pinhão, na estação, acondicionavam-no em grandes cestos de taquara, que eram imergidos em algum curso d'água. O pinhão ficava lá até virar papa, quando era recolhido para extração da polpa e secagem.
A farinha de pinhão durava o ano todo.
O pinhão desempenhou, para os índios de Curitiba e do Paraná, o mesmo papel que o trigo na Europa, a mandioca entre outros índios brasileiros, o arroz no Extremo Oriente e o milho entre os povos aborígenes da América do Norte e Central. O nome “cury” é guarani, não exatamente tupi, só sendo conhecido pelos índios do extremo sul, que, também o chamavam, apenas, de “ibá” = “fruta”, a fruta por excelência.

Mil Seiscentos e Noventa e Três – Em 1668, o rei e a lei chegam a Curitiba, sob a forma de pelourinho, o tronco de pedra com o brasão de Portugal, onde escravos e criminosos eram açoitados, à vista do público, para não haver dúvidas sobre quem mandava.
Em 29 de março de 1693, foi fundada, oficialmente, a Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba.

BR-116 – Rodovia que liga Curitiba a São Paulo e Porto Alegre; é do outro lado desta estrada que fica o bairro do Atuba, onde se estabeleceu o primeiro núcleo de povoadores dos Campos, da Vilinha ou Vila Velha, ponto extremo do Caminho Itupava.

Caminho Itupava – Um dos três caminhos que os portugueses abriram entre o litoral e o planalto, passando pela Serra do Mar; os outros dois são o da Graciosa e o do Arraial; o Caminho Itupava foi o mais utilizado pelos exploradores e viajantes dos primeiros tempos da história de Curitiba; serviu de roteiro para a construção da Estrada de Ferro que liga Curitiba a Paranaguá.

Batalha do Pente – Assim foi chamado um distúrbio popular, de homéricas proporções, ocorrido na Curitiba do início dos anos 60. Ao contrário do que se poderia pensar, não foi um confronto entre barbeiros e cabeleireiros. Foi uma depredação das pequenas lojas sírio-libanesas da Praça Tiradentes, que, aí, mantêm tradicional comércio barateiro de generalidades, por uma multidão enfurecida de passantes e fregueses. O estopim da efeméride parece que foi a queixa do comprador de um pente numa das lojinhas, que achou excessivamente caro o preço do insignificante objeto. Da queixa à altercação e desta para as vias de fato, foi um pulo. Junta gente para assistir à memorável pugna entre o freguês e o dono do estabelecimento. A imprevisível lógica das massas fez o resto. O povaréu se solidariza com o freguês. E começa o quebra-quebra. Que logo se generaliza, em toda a praça. Foi preciso muito cassetete para serenar os ânimos.

Jaime Monteiro – Fiscal aposentado do Imposto de Renda, grande praça e emérito jogador de bilhar dos anos 30/50. Enquanto ele coloca suas bolas 7 na caçapa, Dona Célia, sua esposa, qual moderna Penélope, o espera, ansiosa mas pacientemente, no bucólico portão próximo à Pracinha do Batel.

Adir de Lima – Professor de desenho e grande ás do ciclismo curitibano dos anos 50, quando a emoção corria sobre duas rodas, nas ruas de um Curitiba com poucos carros e muitos espaço para pedalar. Na época, a Praça Tiradentes era o lugar de chegada das corridas ciclísticas.

Baronesa – Um dos pioneiros do movimento gay em Curitiba, título que a Baronesa compartilha como o lendário Oswaldinho, indiscutível rainha da praça Osório.

Barigui – Um dos rios que banhavam Curitiba. Muito ouro de aluvião deve ter sido recolhido nas areias do Barigui, no ciclo do ouro. Nos anos 50, a garotada ia buscar no Barigui outras riquezas: um mergulho na água fresca, um passarinho aqui, um cabo de cetra ali, uma varinha pra raia, todas aquelas coisas que faziam um menino ser menino, nas águas mansas daqueles tempos.

Tropeiros – Os grandes condutores de tropas de muares e equinos que iam buscar os animais no Rio Grande para trazê-los até a feira de Sorocaba, em São Paulo, com destino às Minas Gerais, não eram obscuros boiadeiros. Constituíam verdadeira aristocracia a cavalo em trânsito, chefes das mais distintas e poderosas famílias de Curitiba, senhores, aqui, de vastas pastagens, onde o gado engordava, nas invernadas, antes de seguir para o norte. Alguns ganharam títulos de nobreza do Império:
“Dos seis titulares paranaenses do segundo reinado, quatro eram tropeiros: o visconde de Guarapuava, a viscondessa de Tibagi (mulher do Barão de Tibagi, que era tropeiro), o Barão de Guaraúna e o Barão de Montecarmelo. Os dois restantes, o Barão do Cerro Azul e o Visconde de Nácar eram do mate.” (Davi Carneiro)

Riachuelo – À época da Curitiba do tropeirismo, um dos limites da vila, que eram os seguintes: Rua Riachuelo, Fazenda do Barigui, Rua Tibagi, imediações da atual Ponte Preta, Fazenda do Cajuru, Campo da Bulha, Tindicoera, Fazenda do Uberaba, Botiatuva, Juvevê.

Portão – Um dos principais bairros de Curitiba deve seu nome a uma porteira para a entrada do gado nos campos de engorda que, então, verdejavam naquelas bandas.
Logo ali, a venda do velho Romão regurgitava de todas as coisas úteis e agradáveis na vida de um tropeiro. A começar, claro, por uma nutrida talagada de cachaça, que é pra tira (sic) o pó da estrada, soltar a língua e botar a valentia pra fora.

Choro de Rua – Visão de Curitiba de 1853, ano da emancipação política do Paraná; a seguir, o nome das ruas, praças, travessas, bicas e becos da Curitiba de então, ao lados das denominações atuais dos mesmos lugares:

Bica do Campo – Praça 19 de Dezembro
Rua do Comércio – Marchal Deodoro
Rua da Entrada – Emiliano Perneta
Rua da Carioca – Emiliano Perneta
Rua da Ladeira – Dr. Murici
Rua das Flores – 15 de Novembro, Rua das Flores
Rua Nova do Saldanha – Carlos Cavalcante
Rua do Fogo – São Francisco
Rua da Cadeia – Praça Municipal
Rua Alegre – Cândido Leão
Rua do Louro – Barão do Serro Azul
Rua Fechada – José Bonifácio
Rua do Rosário – Rua do Rosário
Travessa da Ordem – Galeria Júlio Moreira
Travessa da Casinha – Saldanha Marinho
Beco do Inferno – Beco do Marumbi
Pátio da Matriz – Praça Tiradentes
Largo da Ponte – Praça Zacarias

Monte - “À noite vagavam pelo Pátio da Matriz, em plena treva, as cabras, bois e cavalos – costume esse que só foi derrogado em 1875, na administração do Dr. Lamenha Lins, e isto por ter este distinto Presidente, ao atravessar o lardo da igreja, caído em grave risco por cima de uma vaca, que se achava, com muito conforto, mas pouca reverência, deitada no caminho.” (Rodrigo Júnior)

Engenho Velho – Gente dos anos 60 ainda pegou, em seus mais verdes anos, velhos engenhos abandonados, sobreviventes dos tempo em que o mate fazia a riqueza da terra. As sérias fábricas de outrora tinham se transformado em parque de brincadeiras da criançada, cheias de esconderijos bons pra brincar de esconde-esconde, nos 31 segundos do 31. Malassombrados, esses lugares. Testemunho fidedignos falavam do homem verde, que vagava por ali, verde como eram verdes os trabalhadores da erva-mate, vestidos de roupa verde e cobertos da verde poeira que se despendia da moenda e pairava no local.
Um dia, o Nacib, proprietário do terreno de umas dessas ruínas, contou para a garotada que brincava lá, que tinha visto, passeando no lugar, uma mulher toda de branco, que branco é a cor preferida de visagens e assombrações.
A garotada acreditou. Mas continuou brincando de 31.

Serraria – Depois do mate, a madeira. E haja floresta para tanta serraria. Peroba. Bracatinga. Imbúia (sic). Araribá. Caviúna. Catiguá. Copaíba. E as árvores viraram pau para toda obra, casas, móveis, objetos de uso. Não é por acaso que o símbolo do Paraná é o pinheiro, nome de árvore, nome de madeira.

Casa Costa Pereira – Ver Casa Costa Pacheco.

Casa Costa Pacheco – Ver Casa Costa Pereira. Nome de duas firmas comerciais do início do século XX, cujos vendedores ambulante iam, de porta em porta, oferecendo, a toda Curitiba, as últimas novidades do mercado, malas cheias de tecidos, bijuterias, quinquilharias, perfumes e todas as outras coisas indispensáveis a uma vida civilizada.

Ilha do Mel – O filé mignon das ilhas do litoral paranaense.

Grêmio Buquê – Associação da Curitiba de antanho, que congregava senhoras e senhoritas da nossa melhor sociedade, em volta de saraus, chás beneficentes e outras diversões inofensivas. Rival do Grêmio das Violetas.

PRB2 – Bastou nascer no Rio de Janeiro a Roquete Pinto, a primeira estação de rádio do Brasil, para Curitiba imitar. E assim nasceu a nossa PRB2, a segunda do país em data.

Garcez – O primeiro grande edifício de Curitiba. Durante anos, seu ponto mais alto.

Mercês – Bairro de Curitiba, a oeste, onde toca o sino da Igreja dos Capuchinhos e o sol de põe.

Matinhos – Um dos primeiros balneários do litoras paranaense.

Rua XV – Nome de gala que a tradicional Rua das Flores enverga em ocasiões civico-festivas.

Tindobre Panhe - “Bom dia, senhor”, em polonês. Inúmeras expressões das várias etnias que compõem o Paraná são, em Curitiba, de domínio público. Qualquer curitibano sabe que “arigatô” é “obrigado” em japonês.

South – Empresa de energia elétrica da Curitiba de outrora, concessionária do serviço de transporte por bondes elétricos.

Universidade – Curitiba teve a primeira Universidade do Brasil, em data: 1912.

Ahu – Célebre cassino de Curitiba, onde fortunas se fizeram e se desfizeram da noite para o dia.

CDF – Sigla indicando que o designado tem uma parte muito sensível do corpo constituída de ferro. Qualifica estudantes ou profissionais muito aferrados aos seus deveres.

Raia Bidê – Com o nome de raia, pipa ou pandorga, dependendo da região, o mais aéreo dos brinquedos infantis é sempre um desejo de ir com o vento, nesta Curitiba de tantos ventos e tantas raias bidê aos quatro ventos.

Genésio – “Band-leader” de uma das mais dançadas orquestras de Curitiba, responsável por inúmeras tardes dançantes, noites românticas, inícios de namoros e inesquecíveis momentos de enlevo e arrebatamento.

Violeta – Cadela e co-adjuvante do palhaço Chic-Chic, que no Circo Queirolo encantou duas gerações de curitibanos. O número do genial palhaço dependia, em grande medida, desta cadela de pano que Chic-Chic manipulava como um instrumento do seu grande ofício. Fazendo-a pular. Conversar com as mocinhas bonitas da primeira fila, não raro com implicações ambiguamente eróticas. Ou, simplesmente, pontuar a ação daquele que foi o nosso Piolim.

Queirolo – Dinastia de artistas circenses. Uruguaios de origem, os Queirolo marcaram época, em Curitiba, com seu circo, onde brilhou o extraordinário Chic-Chic, o maior palhaço que esta cidade já riu. Irmão de Chic-Chic, o talentoso Chicharrão, que terminou seus dias como mordomo de Bibi Ferreira.
A família deu ainda vários acrobatas, contorcionistas e estrelas de picadeiro.

Passeio – Criado pelo comendador Fontana, no charco do Rio Belém; misto de zoo, horto botânico e oásis de lazeres domingueiros, o Passeio Público vem sendo o sonho da criançada curitibana, há gerações.
Quer pipoca, tem. Quer algodão doce, também. Bexiga. Amendoim. Duvidar, tem até fotógrafo lambe-lambe.
Lá no meio, o Pasquale se desdobra em chopes gelados, feijoadas e barreados aos sábados.

Nireu Teixeira – O último dos boêmios românticos da cidade.
Jornalista e virtuose da caixinha de fósforo e do bom papo, Nireu foi fundador do Bloco Vira-Lata, uma página do carnaval curitibano.

Campo de Santana – Ponto de partida da experiência “rurbana”, em Curitiba.




sexta-feira, 14 de junho de 2013

Denise Assunção - A Maior Bandeira Brasileira (1990)

Primeiro disco da atriz e cantora Denise Assunção. Sim, ela é irmã do Itamar Assumpção. Aqui temos a canção Hard Feeling, parceria de Leminski com Itamar. De todo o cancioneiro de Leminski, é a única em outro idioma, no caso, o inglês.









A letra:

"Oceans, emotions
Ships, Ships
And other relationships
Keep us going trough the fog
And wandering misty

What is it that I missed
What is it"

lmsk (mp3 + imagens)

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Carlos Careqa - Os Homens São Todos Iguais (1989)

"Eu gosto de Cu...!". Calma, calma. Antes de tirar qualquer conclusão precipita é melhor antes ouvir a primeira faixa desde disco, obra de estréia do cantor, compositor e publicitário catarinense Carlos Careqa. Assim como o onze cantos, de Marinho e Vítola, já postado aqui, eu diria que essa é umas das melhores coisas que eu já ouvi feitas no Paraná, assim, de música popular.
Destaques: 
Não dê pipoca ao turista - uma homenagem à capital paranaense. Pra quem não conhece bem a city, algumas referências vão passar batido, certamente. Por exemplo: a "praça do homem pelado" é a praça 19 de dezembro, que fica na frente do Shopping Mueller. Lá tem uma estátua de um homem nu, daí o apelido. Na cidade não há metrô, então em "os buracos do Metrô", trecho da letra, a referência é a uma boate de "luzinhas vermelhas", cujo nome é Metrô. Interessante observar o sotaque carregado (propositalmente). É aquele "e" forte do final de "gente", "quente", "gerente", características inconfundíveis do legítimo curitiboca. No repeteco da canção, o instrumental fica à cargo da dupla Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, famosa pelo seu hilário espetáculo Tangos e Tragédias;
Acho - esse negócio de amar ao meio não tá com nada mesmo. Linda música;
Cidade - adaptação para canção de um poema de Milton Karan. Uma reflexão meio malthusiana sobre os limites e os fins das cidades. Essa vai direto pro meu blog La Belle Verte. Sobre Cidades, cabe ainda salientar o arranjo do violonista e compositor Chico Mello, impecável. Mello mora hoje na Alemanha e flerta com as técnicas modernas de composição, o que aparece um pouquinho na tendência minimalista do arranjo.
Ah, me empolguei tanto que esqueci de falar do Leminski. É o seguinte, Leminski adaptou a peça "Alles Platik", do alemão Volker Ludwig. Pelo que entendi, a letra da música é um trecho da peça, e por isso o cachorrolouco entra nos créditos. Segundo Eugène Van Erven (link para o livro): "Alles Plastik (Tudo Plástico) é uma peça para jovens e lida com a mentalidade apática e desesperançosa dessa faixa etária."
E nessa estória toda de plástico, plástico, plástico, como não lembrar de Fake Plastic Trees, do RadioHead, ou de Fly me to the earth, da banda belga Wallace Collection? Essas duas, mais Alles Plastik, formam uma espécie de variações sobre um mesmo tema. É isso aí!

lmsk (áudio do CD + imagens do LP)

Seguem os vídeos da tríade plástica:




quinta-feira, 6 de junho de 2013

Moraes Moreira - Cidadão (1991)

Neste disco está a canção Lêda. Achei ela um pouco fora de contexto, em meio ao clima politizante de toda a obra. Trata-se de um poema de Leminski musicado por Moraes Moreira. Foi posteriormente publicado no livro La Vie En Close, onde se incentivava outros artistas (leitores) à musicá-lo: "Esse poema já foi musicado duas vezes. Uma por Moraes Moreira, outra por Itamar Assumpção. Que tal você?”. A versão de Itamar eu não conheço, não foi lançada. Há ainda uma versão ao vivo de Moraes, no disco 50 Carnavais, 1997, com o título de A Grande Ciranda. A primeira versão, esta daqui, é em ritmo de valsa, enquanto a segunda é uma marcha. Tem também uma versão de Reynaldo Bessa, no disco Com Os Dentes, 2007. Pelo que me consta, agora só falta um LP do Moraes, com músicas de Leminski, é o Coisa Acesa, de 1982. Em breve por aqui!

lmsk (mp3 + imagens)

domingo, 5 de maio de 2013

marinho gallera & paulo vítola - onze cantos (1979)

Continuando nossos trabalhos, essa semana eu resolvi seguir na linha das apresentações. Em Onze Cantos não há nenhuma música de Leminski, mas o texto de apresentação do disco é dele. O que me impressionou foi o conhecimento técnico de Leminski sobre música. Com certeza ele devia estar estudando alguma coisa de teoria musical. Ele menciona "acorde perfeito maior", e a clássica classificação da música, "melodia, harmonia e ritmo". Tem muito músico que não conhece essas terminologias (não que deve, claro). O fato é que Leminski, também na música, não exitou em se informar, como em tudo que fazia.
O MAPA - Movimento Atuação Paiol, citado nesse texto de apresentação, rendeu um disco, que saiu pelas Edições Paiol, em 1976. Vocês encontram o Lp e mais informações sobre aqui neste blog. Quando Leminski se refere a "espaço", para Vítola e "tempo", para Marinho, está repetindo, mais uma vez, um discurso seu bastante recorrente. Espaço são as palavras inscritas no papel, é a poesia propriamente dita, o que ficou a cargo de Vítola, letrista. Tempo é a música, a melodia, feita por Marinho Gallera. A poesia de Leminski teve uma mutação nesse sentido, que passou do espaço para o tempo, quando deixou gradativamente seu aporte concretista para embarcar numa poesia mais próxima da estética das letras de canção popular. A observação vem dele mesmo, em forma de poema:

        Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
        na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
        Sôo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
        do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
        que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

        E is a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
        e não cabe mais na sala
.

(Leminski, La Vie En Close)

Sobre o disco: uma das melhores coisas que eu já ouvi de música popular, produzidas no Paraná. É um momento importante da história musical do estado e que la nuova gioventú artística desconhece. Malhar os antigos é fácil, mas reconhecer bons trabalhos exige um pouco mais de esforço (sobretudo pesquisar). Refiro-me a uma parcela dessa juventude que só "fala mal", é claro, porque também tem uma galerinha aí olhando pra traz.
Como sempre, tem umas que a gente gosta mais do que outras, então, eu destacaria:
Musicalmente: Noturno (um jazz-bossa-nova de melodia inventiva e harmonia idem); Quatro Tempos (um xotezinho super bacana); Motivo (um chamamé dissonante. A cadência harmônica lembra muito uma guarânia de Marinho Gallera, do disco do MAPA, Que Há de Novo.)
Poeticamente: Balaio Cheio, (...como um rato na boca de gato, na boca de um cão/como um fato na boca de um ato, na boca de um não/mais perigoso que viver é pensar, mais perigoso que pensar é dizer/mais perigoso que dizer é cantar uma canção...); Águas Claras (...aprenda a me viver, depois me ame/aprenda a ser você, depois me seja...)
Logicamente que tudo vai depender da adequação entre ente melodia e texto, como diria Luiz Tatit. Então dividir canções assim, em música e texto, isoladamente, não é muito apropriado. Fiz isso aqui pra entrar no lance do espaço/tempo.

lmsk (mp3 + imagens)

O texto de apresentação:

Receita de Vítola e Marinho

Paulo Leminski

Pegue um poeta inspirado e um violeiro tipo exportação.
Não. Não vou refazer “Receita”, a canção da dupla que foi mais longe até agora.
Falo da formação de cada um, a composição dos compositores, e do lugar que eles ocupam em nosso “panorama” musical.
Na música popular curitibana (abram alas, über alles!), a parceria de Vítola e Marinho sucedeu como um acorde perfeito maior, maravilha qualquer, misteriosamente, feito todas as parcerias nesse velho mundo novo desparceirado.
Vítola: homem de texto como poucos, poeta desde sempre, também músico e compositor solitário, com um passado sonoro de muitas canções, afeito ao comércio com os grandes mestres da poesia e da música popular brasileira, Drummond, Cartola, João Cabral, Elton Medeiros, Manuel Bandeira, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, João Gilberto, Mário Quintana, tutti buona gente.
Marinho: tinha que ser do interior de São Paulo, terra de violeiros, rica de substância musical popular, sofisticando seus traços de origem, numa síntese, em seis ou doze cordas, de todas as vibrações que atravessam nosso campo acústico.
Trabalhador musical incansável, Marinho é ativo também no front de música para show de teatro, um dos terrenos favoritos de Vítola, por sinal (estão aí a sua “Cidade sem Portas”, sua “Curitiba Velha de Guerra”, seu “Diário de Bordo”, com ou sem Marinho, Vítola prefere com, vestígios claros da presença de música inteligente no planeta Curitiba).
A dupla foi uma das almas do MAPA, Movimento Atuação Paiol, série de shows-mutirão, no Teatro Paiol, saque de Vítola, que roteirizou, dirigiu e animou os dois primeiros MAPA (eu fiz o roteiro do terceiro e último show, quando Vítola, em 75, foi para o Rio numa entrada & bandeira). Os shows do MAPA arrebanharam os mais notórios compositores populares da cidade, no intento de “colocar a música popular curitibana e paranaense no mapa do Brasil.” Se conseguiu ou vai conseguir, ainda é cedo para dizer. Não tem dúvida que uma porção de coisa nasceu com os MAPA, principalmente, uma identidade e uma consciência própria nos participantes e nalgum público, principalmente, o pique de prosseguir em muitos dos mapeadores (ou mapeados?).
O percurso de Vítola e Marinho, a essas alturas, já não distingue da batalha por um lugar ao sol para o som e a voz deste temperado, imigrante e elétrico, caboclo e industrial, em busca do seu rosto, seu caráter próprio e seu cantar, o rosto e o cantar do Paralelo 24, onde Vítola, numa canção, descobriu sua terra.
Nas canções da dupla, a música de Marinho, concentrando cada vez mais suas forças harmônicas, melódicas e rítmicas, em líquidas arquiteturas de fino filão, e a poesia de Vítola fundem-se numa síntese original.
Espaço de Vítola, tempo de Marinho.
Este disco.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Itamar Assumpção - intercontinental! quem diria! era só o que faltava!!! (1988)

Esse disco vai dar um certo pano pra manga. Tem bastante coisa pra falar. Vamos começar, então, pela música. É nesse disco de Itamar que foi lançada a primeira gravação da canção Filho de Santa Maria, de Leminski. Letra e música dele. A parte final da letra, a partir de "hoje eu saí lá fora...", é uma complementação feita por Itamar. Além dessa primeira gravação, há ainda mais quatro registros: pelo Quarteto Repercussão, no disco Som Mestiço; por Zizi Possi e Marcos Suzano, no disco Mais Simples; pelo grupo londrinense Beco, no disco Beco; e pelo Bernardo Pellegrini e o Bando do Cão Sem Dono, no disco Quero Seu Endereço. Vou comentar a particularidade de todas quando das suas devidas postagens. Uma coisa interessante, particularidade geral, é que essa é uma das músicas de Leminski com mais gravações. Na verdade, só se equipara a Verdura, que também te cinco gravações, sendo que duas são de Arnaldo Antunes, uma de estúdio e outra ao vivo. Levando por esse sentido, Filho de Santa Maria seria a primeira no ranking de gravações, por que tem cinco gravações de artistas diferentes. Ela ainda foi publicada no livro de canções de Itamar, com letra, partitura e cifra. Aliás, é única música do livro de dois volumes que não é do Nego Dito.
Não tenho muito pra comentar da canção em si. Letra pequena, acordes simples. Numa espécie de apologia ao pecado, não deixa de ser uma crítica ao cristianismo, arraigado a idéia de culpa, embotando, por vezes, um pouco da liberdade natural e do lirismo nesse planeta terra.
Há ainda mais duas particularidades neste disco com relação a Leminski. Na faixa Pesquisa de Mercado I o seu nome é citado, ao lado do escritor/músico kaótico Jorge Mautner. "...perguntar se Leminski, Mautner tens lido e ouvido..." Muito bem colocado o "ouvido", sendo que no próprio disco há uma música do poeta curitibano, com quem Itamar Assumpção já vinha ensaiando algumas e ainda criaria mais.
Outro fato importante nesse disco é a apresentação do mesmo, feita pelo próprio Leminski. O texto, com uma astuta sacada trocadilhesca, intitulou-se "Por Itamares Nunca Dantes Navegados". O mote vai ser o fato desse ser o primeira disco de Itamar não independente, saindo agora por uma grande gavadora, a Intercontinental. Você encontra o texto nesse mesmo blog aqui.
Pra fechar, gostaria de recomendar também outras faixas do Lp. Eu gosto de: Adeus Pantanal (temática verde, vai pro meu blog sobre o filme La Belle Verte); Maremoto no Coração (um sambão, com melodia bastante "musical", que foge um pouco da tendência do canto-falado da estética de Itamar, muito próxima, eu acho, do sprechgesang de Schoenberg); Mal menor (lembra a frase clássica de Guimarães Rosa, "Viver é perigoso"); e Zé Pelintra, um clássico.

lmsk (mp3 do CD + imagens do Lp)